quinta-feira, 16 de julho de 2026

Co-organizadores da Copa divergem sobre Thomas Partey

 


Após acesso negado no Canadá por estar respondendo a processo, EUA libera entrada de ganês que estreia no Mundial; especialista analisa situação


Sem poder estrear diante do Panamá, no Canadá, por ter sua entrada no país negada, o jogador ganês Thomas Partey atuou diante da Inglaterra na última terça-feira, em partida em solo estadunidense. A negativa quanto ao acesso em Toronto deve-se ao fato do jogador estar respondendo a um processo no Reino Unido. O volante, que se declara inocente, é acusado de cinco crimes de estupro e um de agressão sexual em julho de 2025 e tem julgamento marcado para junho de 2027 no Tribunal da Coroa de Southwark, em Londres, Inglaterra.


Reflexo da dificuldade e dos desafios de sediar uma Copa do Mundo em diferentes países. 

Nesse ano, Estados Unidos, Canadá e México são os anfitriões da competição, no entanto, com políticas distintas acabam seguindo protocolos divergentes para o mesmo caso. O jogador de Gana, Thomas Partey, foi vetado de entrar no Canadá para a primeira rodada do Mundial em partida realizada no estádio BMO Field, em Toronto. No seu formulário de pedido de visto, o atleta preencheu “não” quando questionado se já havia cometido ou respondido por crimes em qualquer país, o que fora crucial para o veto canadense. 


O governo ganês protestou e entrou com recurso tentando reverter a situação. Para as autoridades canadenses, a declaração foi considerada falsa e a existência das acusações já eram o suficiente e, por isso, recusou o recurso do atleta. Tal proibição gerou uma crise diplomática, onde o ministério das relações exteriores emitiu um comunicado afirmando que a decisão foi arbitrária e extremamente injusta já que se baseia em acusações não comprovadas. De nada adiantou, e o volante do Villarreal, da Espanha, permaneceu fora do país e sem poder atuar no confronto.


Alguns dias depois, para a segunda rodada do Mundial, a situação mudou, já que Gana enfrentou a Inglaterra nos Estados Unidos, no estádio Gillette Stadium, em Boston. Thomas Partey foi liberado para entrar no país sem qualquer tipo de restrição e jogar, o que o fez quebrar o silêncio: “Acho que isso faz parte do futebol. Acontecem coisas que você não consegue controlar. Para mim, agora está tudo bem e estou pronto para jogar”.


A liberação ao atleta para adentrar aos Estados Unidos e atuar, levantou um questionamento: Por que dois co-organizadores da Copa possuem maneiras diferentes de encarar a situação? Advogado do escritório de advocacia CCLA Advogados, Cristiano Caús, analisa a situação.

“A co-organização da Copa do Mundo não obriga, sob nenhuma hipótese jurídica, os Estados Unidos e o Canadá a seguirem o mesmo protocolo de admissão ou a unificarem suas decisões migratórias. Os acordos firmados com a FIFA são de natureza civil e desportiva. Eles não possuem o poder de revogar ou mitigar a soberania nacional de um país. O Canadá barrou a entrada do atleta com base estritamente em sua legislação interna de segurança e inadmissibilidade criminal, devido às investigações que ele enfrenta no Reino Unido. Já os EUA aplicaram seus próprios critérios discricionários para liberar o visto. Juridicamente, a soberania estatal e as leis de imigração de cada país-sede sempre estarão acima de qualquer regulamento de competição”, garante Caús.


A decisão apresenta caráter polêmico quando lembramos da situação que a seleção iraniana tem passado durante o torneio. Por conta do conflito central entre Estados Unidos e Irã, envolvendo disputa geopolíticas, sanções, programa nuclear iraniano, fora os constantes ataques militares, o último em fevereiro deste ano, os asiáticos têm enfrentado muitas dificuldades em território estadunidense, ainda mais por fazer as três partidas da primeira fase nas cidades de Los Angeles e Seattle. A principal delas foi a imposição americana em permitir que a delegação iraniana entre no país apenas 24 horas antes dos confrontos e deixe o país imediatamente após os jogos. A Federação de Futebol do Irã solicitou que a FIFA mudasse seus compromissos para o México, mas diante da logística do torneio, a entidade não aderiu ao pedido e com o intuito de amenizar a situação, sugeriu que mudasse sua base para Tijuana, no México. Pedido prontamente aceito pelos mexicanos: “Os Estados Unidos não querem que a seleção iraniana fique para pernoitar Então, eles nos perguntaram: 'Podemos pernoitar no México?" Nós dissemos que sim, sem problemas, revelou a presidente do México, Claudia Sheinbaum, em entrevista coletiva.


O apoio mexicano tem sido um fio de esperança para os iranianos que demonstram grande gratidão por terem sido acolhidos pela cidade e pelos habitantes do país. Recentemente, o capitão da seleção do Irã, Alireza Jahanbakhsh, agradeceu à população mexicana pela demonstração de afeto e carinho que eles têm recebido e diz já estar se sentindo em casa.


Depois do primeiro duelo diante da Nova Zelândia, os iranianos deixaram uma carta, manuscrita em inglês, no vestiário pedindo paz: “Da antiga Pérsia de milênios atrás ao Irã civilizado de hoje. O espírito do Irã permanece vivo e inabalável. Viemos a Los Angeles com orgulho, competimos com honra e partimos com dignidade”. Além disso, a mensagem lembrava do bombardeio a uma escola feminina, que deixou 168 mortos, em fevereiro. Já no aeroporto, retornando a Tijuana, agências de notícias estatais iranianas revelaram ainda que o atacante Mehdi Taremi, principal jogador da seleção, e o membro da comissão técnica Saeid Alhouei foram retidos no embarque de Los Angeles. Os dois enfrentaram "atraso injustificado" nos procedimentos de checagem de passaportes e vistos na imigração do aeroporto, mas depois foram liberados.


Os EUA têm tratado com bastante distinção as situações de Thomas Partey e da Seleção iraniana, o que deixa claro o posicionamento do país, que tem colocado a frente seus interesses diplomáticos.


“A dualidade de critérios na concessão de vistos a delegações estrangeiras, como ocorre historicamente com o Irã, comprova categoricamente que o esporte de alto rendimento continua subordinado aos interesses diplomáticos e políticos externos. A suposta ‘neutralidade política’ defendida pelas entidades esportivas é uma ficção jurídica que desaba diante da realidade prática. A FIFA e o COI são associações privadas e não têm poder coercitivo sobre as fronteiras de um Estado soberano. Quando um governo decide impor barreiras ou facilidades burocráticas baseando-se em tensões geopolíticas, ele está exercendo o seu poder de polícia e sua política externa. O direito desportivo internacional não tem força para anular as decisões de segurança de uma superpotência. O esporte, no cenário global, opera sob a total conveniência da diplomacia dos países que o sediam”, conclui Cristiano Caús, advogado do CCLA Advogados


A situação vivenciada na Copa do Mundo de 2026, onde os co-organizadores apresentam julgamentos e posicionamentos divergentes sobre o mesmo assunto serve de alerta também para a Copa do Mundo de 2030, que tende a ter políticas distintas com relação a entrada nos países, já que pela primeira vez, o Mundial será disputado em continentes diferentes. Para celebrar os 100 anos do primeiro torneio disputado no Uruguai, serão disputadas partidas inaugurais no Uruguai, na Argentina e no Paraguai. No entanto, as sedes oficiais da competição serão Espanha, Portugal e Marrocos. 


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